17/4/09

Réquiem para uma casa demolida, com dedicatória ao final.

Foi ao chão a velha casa que abrigou por muitos e muitos anos o armazém do Zé Mendonça. Não tinha nenhum valor histórico, nem arquitetônico, era de um estilo comum e  dividida entre a residencia do sô Zé e dona Stela e a venda. Para os filhos deve ter tido grande valor sentimental e para a minha geração e a  outra antes da minha o valor era referencial.  Ficava na muito valorizada esquina de rua Direita com rua do Rosário, a “esquina do Zé Mendonça”  e agora,  das antigas casas da rua do Rosário, resta apenas uma, totalmente desfigurada, exatamente na outra ponta do quarteirão, que foi a antiga residência do dentista Alcides Lino e de dona Jaci Campos, de frente para a praça Melo Viana.

Acredito que em um raio de 500 metros da”venda do Zé Mendonça” todas as familias eram freguesas. O espaço não era grande mas a freguesia sim. Eram os bons tempos da caderneta, quando as compras eram anotadas pelo vendeiro e pagas religiosamente  no dia aprazado. O percentual de inadimplentes era pequeno, e quando algum  cliente ficava desempregado, sem renda, sô Zé Mendonça continuava a fornecer ao amigo, (a relação era de amizade entre o dono e o freguês), normalmente, até que as coisas se normalizassem. No livro Pará de Minas, meu amor!, que será lançado brevemente, vários autores fazem referencia ao armazém, pois o mesmo é parte de sua memória afetiva. 

Esse negócio de entrega a domicilio, delivery, tão em moda na atualidade, era coisa antiga nos tempos   da venda do sô Zé. Alguns caixeiros, como eram chamados os balconistas que também faziam as entregas, ficaram famosos, entre eles José Porfirio, que foi prefeito por três mandatos e se tornou o político  mais popular da cidade no século XX; Antônio “Casinha” Cecílio de Almeida que depois também se estabeleceu com uma loja de calçados: Geraldo “Alemão” Mendes, que foi vereador por dois mandatos e Geraldo Marinho que também foi vereador, presidente da Câmara e secretário municipal da Fazenda por 30 anos. Entrava prefeito, saía prefeito e o Geraldo Marinho lá, firme, cuidando das finança pública, com um zelo que mais não se vê. Deste modo, trabalhar na venda do Zé Mendonça era como fazer um curso de técnicas comerciais. Há alguns anos, contou-me Geraldo Marinho, que estando a  juntar os papéis para se aposentar, foi até a casa do sô Zé perguntar-lhe se ele ainda tinha algum recibo, algum documento, que comprovasse ter sido ele empregado no armazém. Zé Mendonça ouviu, pediu ao Geraldo Marinho que esperasse um pouco, foi lá dentro da casa e quando voltou trouxe um livro com todas as anotações, os mínimos detalhes, do relacionamento patrão/empregados, emprestou ao Geraldo o livro para que ele o apresentasse como prova junto ao INSS que nem pediu outras, as anotações do Zé Mendonça bastaram. Uma coisa os ex-empregados do armazém tinham em comum: o orgulho de terem  trabalhado lá, de terem sido aprendizes do Zé Mendonça, coisa que todos sempre fizeram, e fazem, questão de dizer ao longo de suas vidas, como se o emprego desse  status, o que pensando bem, dava mesmo.

Falar do casal Zé Mendonça/dona Stela eu não vou, pois no livro já citado a vir a lume em breve, a jornalista Maria Inês Herzog, que é sobrinha de dona Stela o faz muito bem e com muito mais conhecimento. Além disso, o memorialista Orlando Moreira  já discorreu sobre o tema, em sua obra memorialística ” O que sei e o que fiquei sabendo”, sobre o Pará de todos os tempos.

Com a aposentadoria do querido vendeiro, morto já há alguns anos, o ponto comercial foi alugado e recebeu lojas dos mais variados tipos de comércio, nenhuma que marcasse o nobre endereço. Com os filhos espalhados pelo mundo e com o falecimento de dona Stela,  a casa ficou sendo como  um elo que os unia, a “casa da vó” ,  sempre havia por lá uma das “meninas “. Nos últimos anos  ficou famosa por conta de uma “namoradeira” de tamanho natural, feita em madeira, que era colocada sobre o parapeito da janela do alpendre, de frente para a rua Direita. Eu mesmo, no inicio, cheguei a levar susto com a peça, ao passar por lá de madrugada e ve-la ali, pensando se tratar de alguem da residência. Mas eu sei que existem casos hilários de outras pessoas que também se confundiram. Para a atual geração de para(min)enses vai ficar na memória como a “casa da namoradeira”.

Mas o fato é que a especulação imobiliária venceu outra vez,  levando   um pouco das lembranças de um Pará que não existe mais. Pensando bem, o imóvel não era mesmo um patrimônio a ser tombado. Vale muito mais as boas recordações de quem nele viveu, de quem teve o privilégio de frequentar, de ser freguês do armazém, de lá trabalhar.  Parafraseando Drummond, agora a velha casa onde funcionou o armazém do Zé Mendonça  “é apenas um retrato na parede.”

(Dedico este texto ao Zé Antônio, Luiz,  Giovani, Valéria, Gerusa e Betânia, filhos de dona Stela e de sô Zé Mendonça, bons amigos meus, apesar de a gente quase não se ver ou falar. São de fato os amigos do coração, de uma vida inteira).

criado por luizvianadavid    9:10 — Arquivado em: Sem categoria

8 Comentários »

  1. Comentário por Mateus Mendonça PInto — 17 17UTC abril 17UTC 2009 @ 11:08

    Luiz,
    Gostei muito do texto.Por várias vezes ouvi as histórias do armazém do vô.As histórias são muitas,pois minha infância foi toda ali.O almoço de domingo,o famoso frango assado da vó,isso não tem como esquecer,o picolé depois do almoço na sorveteria do Luiz.O preferido da vó Stela era sempre o de “murango”os pacotes e pacotes de bala que o vô sempre tinha na sua gaveta.Se eu ficar falando de comida vou esquecer de alguma coisa e digitar mil linhas.Eles se foram,mas deixou além de saudade,uma família unida e com várias histórias para contar.
    Mateus

  2. Comentário por Hugo Flávio — 17 17UTC abril 17UTC 2009 @ 15:17

    Luiz,
    Belo comentário. Você disse tudo. Nasci na Rua do Rosário, 29 (a casa ainda está lá) e toda minha vida morei nas imediações da Praça do Rosário (Pça.Melo Viana).
    Lembro-me do Zé Mendonça desde que nasci. Não me esqueço daquelas caixas de madeiras com divisórias, onde eram colocados arroz, feijão, macarrão, etc., tudo a granel, que eram retirados por uma pá de folha de zinco, com alça e pontuda e lançados nos sacos de papel para serem levados à balança e pesados. Era o armazém, nada de produtos já ensacados previamente pelas fábricas.
    Lembro-me, ainda, do açouque do Wilson Amarante, logo ao lado (na época no mesmo prédio), onde também tenho muitas recordações, tanto do próprio, tantos seus filhos e empregados.
    Boa recordação. Assim vale a pena ter vivido para se contar, talvez, o que muita gente não quer ouvir.
    abraços do Hugo Flávio.

  3. Comentário por Zé Antônio — 18 18UTC abril 18UTC 2009 @ 6:24

    Caro Luiz,
    no momento, a diferença de fuso horário entre o Brasil e a Alemanha é de cinco horas. Ontem, dia 17, pela manhã (no horário alemão), fiz a minha visita diária obrigatória ao seu blog. Este texto sobre a casa dos meus pais ainda não estava acessível à leitura. Só hoje, sábado, é que pude lê-lo, juntamente com os comentários do Mateus e do Hugo Flávio.
    Onde estiverem, sei que meus pais estão muito orgulhosos pelo reconhecimento e pelas palavras gentis e comoventes, que você dedicou a eles. Por tudo isto, um muito obrigado especial de toda a família. Você tem toda razão: a casa em si não tinha nenhum valor histórico ou arquitetônico. Era apenas um ponto referencial para gerações e gerações de para(min)enses, como você gosta de grafar. Para a família, além disto, o ponto central e sentimental de nossas vidas, o pivô em torno do qual girava a vida familiar.
    Hugo Flávio lembrou-se também do açougue do Wilson Amarante, cujo cômodo comercial era, na época, alugado de meu pai. A parte da casa e do lote, com frente para a Rua do Rosário, foi vendida posteriormente, creio que na década de 70.
    Também me lembro muito bem do Wilson Amarante e de seus filhos. Eu, que nunca foi de praticar esportes, trago até hoje uma cicatriz num dos dedos do pé direito, resultado de uma “contusão” ao bater bola com os filhos do Wilson na Rua do Rosário, em frente ao açougue. Devia ter então uns seis ou sete anos de idade. Quis chutar a bola, escorreguei e chutei a ponta de paralelepípedo com toda força.
    Do Wilson Amarante, o Geraldo Alemão gostava de contar uma piada, que com certeza não era verídica, mas muito engraçada. E como disse o italiano Giordano Bruno, “se non è vero, è molto ben trovato”. O Wilson tinha um número incrível de filhos, não sei quantos, mas era uma das maiores famílias que conheci. Dizia o Geraldo Alemão que, certo dia, o Wilson Amarante chegou em casa cansado do trabalho, de muito mau humor. Na cozinha, sua esposa preparava o jantar. Sentada no chão, ao lado, estava brincando uma criança de uns cinco anos de idade. O Wilson: “Ô menino, toda hora que eu chego em casa, você está aqui. Você não tem onde morar, não? Vá para a sua casa!” Branca de susto e de indignação, a esposa do Wilson (lamentavelmente não me lembro do nome dela) retrucou: “Que é isso, Wilson? Este é nosso! Você não conhece seus filhos?”
    Luiz, continue nos brindando com suas excelentes crônicas. Um muito obrigado deste seu leitor diário.
    Zé Antônio

  4. Comentário por Raquel Mendonça — 23 23UTC abril 23UTC 2009 @ 16:18

    Olá Luiz, como vai? Eu sou a Raquel Mendonça (filha do Moytha, o seu xará) neta da Vó Stela e do Vô Zé. Obrigada por um texto tão belo. Para nós, netos, o armazém sempre foi razão para boas histórias, como agora será para os nossos filhos a querida ‘casa da vó’. É através de relatos como a seu que a história da nossa família não se perderá. Gostaria de publicá-lo no meu blog, se não se importa. Por favor, me avise. Parabéns pelos textos. Raquel

  5. Comentário por Mércia — 23 23UTC abril 23UTC 2009 @ 16:41

    Luiz,
    Parabéns pelo belo texto. Estou aqui engasgada e emocionada, afinal foram 33 anos de um convívio privilegiado com os donos do armazém, o qual não conheci, mas consigo visualizar pelo grande número de estórias que ouvi ao longo dos anos.
    Um abraço,
    Mércia

  6. Comentário por Leticia Mendonça — 24 24UTC abril 24UTC 2009 @ 9:32

    Vô Zé e Vó Stela. Às vezes me parecem personagens de estórias; às vezes parecem estar ao meu lado, me incentivando e ajudando a dividir com as pessoas os valores que aprendi com eles e com meus pais, Moytha e Mércia. Valores como a honestidade, o respeito e a compaixão.

    A casa hoje, é, realmente, apenas “um retrato na parede”. Mas o caráter do Zé Mendonça é um legado, do qual temos muito orgulho. Um legado, que temos como obrigação perpetuá-lo.

    Muito obrigada Luiz David, pela homenagem e pelo carinho!! Este texto agora também faz parte da nossa história.

    Um grande abraço.

    Leticia.

  7. Comentário por Giovani Mendonça — 17 17UTC maio 17UTC 2009 @ 21:51

    LUIZ DAVID,

    É meu amigo ! Seu texto trouxe boas lembranças !

    O texto traz o sentimento misturado de saudade, muitas lembranças e também alegria, pois acima de tudo, a certeza que a casa cumpriu sua história, uma maravilhosa história da qual pude ativamente participar.
    Eu, ainda menino, vivia no armazém, tirando biscoito salgado, amendoim e tiras de bacalhau. Gostava de acompanhar o ” caixeiro” na entrega aos sábados na carroça e para o olhar de uma criança, era uma viagem aos longinquos bairros de Pará de Minas.
    Da casa, familia e armazém, temos muitas histórias. Uma delas é que os caixeiros de meu pai faziam ” vaquinha ” para comprar Coca Cola e encher o balde onde o burro bebia agua. Após o burro comer milho com muito sal, eles davam o balde de Coca Cola ao invés de água e ficavam dando gargalhadas com os arrotos que o burro dava.

    Deixo aqui UM MUITO OBRIGADO, PELA HOMENAGEM À MINHA FAMILIA e à casa do ZÉ MENDONÇA,
    Forte abraço !

    Giovani

  8. Comentário por Debora Mendonça — 18 18UTC maio 18UTC 2009 @ 12:10

    Caro Luiz,

    recebi o link pra esse texto através do meu pai, Giovani Mendonça, e confesso que não esperava tantas lembranças e emoções.

    Apesar de, infelizmente, não ter conhecido o armazém, cresci ouvindo diversas estorias e ‘causos’, as quais adoro até hoje!

    Mesmo se a casa não esta mais la, ela nos deixou grandes mémorias boas, almoços inesqueciveis, e principalmente o significado do que é ser a familia Mendonça.

    Obrigada por deixar ainda mais na memoria essa casa tão importante pra todos nos.

    Abraços,

    Debora Mendonça.

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